desculpas havewematt blog post matheus silveira

Quando nem você aguenta mais inventar desculpas

Hoje eu queria escrever sobre as desculpas que inventamos. Curiosamente, eu não estava com vontade de escrever, mas decidi ficar na frente do computador até sair algo.

Muitas vezes não fazemos algo só porque sabemos que vai levar algum tempo, e, por algum motivo, não aturamos dedicar nem um pouco de tempo para coisas que tem que ser feitas hoje, mas não dão gratificação imediata, só levando a uma gratificação no futuro.

É isso que, segundo Steven Pressfield no livro War of Art (“A Guerra da Arte”), faz surgir a Resistência.

 

Tem um segredo que escritores de verdade sabem, mas que escritores fajutos não sabem, e o segredo é este: não é a parte de escrever que é difícil. O que é difícil é sentar para escrever. 

O que nos impede de sentar é a Resistência.

steven pressfield havewematt matheus silveira Steven Pressfield, War of Art

 

Segundo o autor, a Resistência faz o que tiver que ser feito para impedi-lo de continuar qualquer projeto com o qual você queira se envolver. Quanto mais importante esse projeto for, mais Resistência você vai sentir.

Para Pressfield, a Resistência se manifesta na forma de procrastinação por ser a forma mais fácil de se racionalizar: você não desiste de algum projeto, você só o deixa para depois. Mas esse depois nunca virá se você continuar perdendo a batalha contra a Resistência.

O jeito de derrotá-la, para Pressfield, é deixando de ser amador e virando um profissional.

 

Alguém uma vez perguntou para Somerset Maugham se ele escrevia periodicamente ou apenas quando se sentia inspirado. “Eu só escrevo quando me sinto inspirado”, ele respondeu. “Felizmente, isso acontece toda manhã às nove em ponto”.

steven pressfield havewematt matheus silveira Steven Pressfield, War of Art

 

Um profissional, para Pressfield, é aquela pessoa que:

  • Trabalha em seu projeto mesmo em dias que não tem vontade de fazê-lo;
  • Busca se preparar e aperfeiçoar sua técnica, buscando se organizar para diminuir as distrações;
  • Não se identifica demais com seu projeto (não pensa em fracassos como fracassos pessoais);
  • Ama seu trabalho, mas não fala dele como se fosse algo glorioso ou misterioso;
  • Se cala e faz o que tem que ser feito;
  • Sabe que não tem como parar de sentir medo e continua a se dedicar apesar do medo;
  • Não liga para o fato de o mercado parecer injusto, porque alguns tem mais sorte que outros.

 

O cérebro reptiliano tem fome, medo, raiva e excitação.O cérebro reptiliano quer só comer e ficar seguro.

O cérebro reptiliano vai brigar (até a morte) se tiver que fazê-lo, mas preferiria fugir da briga. Ele gosta de se vingar e fica com raiva facilmente.

O cérebro reptiliano liga para o que todos pensam, porque status na tribo é algo essencial para sua sobrevivência.

[…]

A Resistência vive dentro do cérebro reptiliano.

seth godin havewematt matheus silveira Seth Godin, Linchpin

 

Quando um profissional não sabe que tipo de trabalho o levaria até o objetivo que ele tem, ele não fica desconfortável com o medo do desconhecido e abre mão de seu objetivo. As pessoas sempre perguntam “o que eu faço agora?” porque têm medo de viver sem um mapa, diz Seth Godin, em seu livro Linchpin (Você é indispensável?: A importância de quem inova, lidera e faz acontecer, em português). Quando eles usam o mapa de outra pessoa, não são culpados por qualquer insucesso em sua vida. A maioria prefere buscar conforto e segurança, mas elas raramente se dão bem na vida. Em vez disso, devemos buscar desafios, mas “fazer um esforço para encontrar situações desconfortáveis não é natural, mas é essencial“, diz Godin.

 

Fazer mais do que você estava fazendo, mas de maneira mais obediente, mais mensurável, e mais na média, não vai solucionar o problema, vai piorá-lo. Fazer a Resistência ficar feliz não é o mesmo que ter sucesso.

seth godin havewematt matheus silveira Seth Godin, Linchpin

 

Assim como desconforto, Seth Godin diz que o modo para se encontrar ideias boas é procurar ideias ruins. A Resistência odeia ideias ruins. Ela prefere então não ter ideia alguma. Mas é necessário aceitar que teremos ideias ruins. Se tivermos o bastante, diz Seth Godin, algumas boas ideias também aparecerão, como mágica.

Este é o segredo, para Seth Godin: pessoas de sucesso vêem fracassos de maneira diferente. Elas os vêem como situações em que suas estratégias não funcionaram conforme esperado. Então, elas tomam esse feedback e se preparam melhor para tentativas futuras. Elas não vêem o fracasso como uma confirmação daquele medo de que elas são perdedoras e nunca vão dar certo na vida. Pessoas que se sentem assim só usam fracassos no presente como desculpas para desistir e não se dedicar mais.

Carol Dweck descreve esses dois tipos de pessoas em seu livro Mindset (Porque Algumas Pessoas Fazem Sucesso e Outras Não, em português). Ela os classifica como pessoas que tem atitude mental fixa (fixed mindset) e pessoas que tem atitude mental progressiva (growth mindset). Pessoas com atitude fixa vêem as coisas que acontecem com elas como uma medida do seu valor como pessoa. Elas têm uma habilidade fixa, a qual devem provar aos outros. Fazer esforço é algo ruim, pois quer dizer que você não é (atualmente) esperto ou talentoso. Pessoas que o são não precisam fazer esforço algum.

 

Fracasso foi transformado de uma ação (“Eu fracassei”) em uma identidade (“Eu sou um fracasso”). Isso é verdade especialmente para a atitude mental fixa.

carol dweck matheus silveira havewematt Carol Dweck, Mindset

 

Já pessoas com atitude mental progressiva, segundo Dweck, são capazes de converter seus fracassos em sucessos futuros. Eles vêem habilidades como algo que pode mudar e ser desenvolvido através do aprendizado. Esforço, para essas pessoas, é o que as torna espertas e talentosas. Para elas, é sempre possível mudar radicalmente quem você é.

Pessoas com atitude progressiva não só buscam as situações desconfortáveis descritas por Seth Godin, elas se dão melhor nessas situações. Já as pessoas com atitude fixa se dão bem apenas quando tudo está ao seu alcance. Elas perdem interesse quando as coisas começam a ficar muito desafiadoras, isto é, quando elas deixam de parecer (e de se sentir) espertas e talentosas.

Pessoas com atitude mental fixa se julgam merecedoras de melhor tratamento por aqueles à sua volta. Elas acham que têm habilidades especiais, as quais deveriam ser reconhecidas. Dweck ressalta que, mesmo quando elas reconhecem que se esforçar pode ser necessário, elas não se contentam com o fato de não ser garantido que vão obter o resultado que desejam (algo que destaquei no último post) quando se esforçam. Para pessoas com atitude fixa, isso é injusto. Se esse sentimento de justiça faz com que uma pessoa deixe de se esforçar, como disse Steven Pressfield, elas são amadoras, não profissionais.

Derrotar a Resistência e se tornar um profissional é algo possível. Estabelecer objetivos mais claros é um modo indicado por Carol Dweck para começar a mudar sua atitude mental. Um jeito para se fazer isso é usar critérios para seus objetivos. Mas estar ciente das diferenças entre os dois tipos de pessoas (e do fato de que sempre é possível melhorar se você se esforçar) já é algo significativo. Reflita sobre isso a cada vez que um desafio aparecer na sua frente. Chega de desculpas.