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Você vs Aquele tio dando dicas de carreira

Sabe aquele tio que enche o saco sobre carreira, vida pessoal, qualquer decisão que você já fez ou vai fazer?

Tio Tiozão diz…

E aí? Como tá [qualquer coisa que ele sabe superficialmente que tá relacionada à sua vida]? Sabe o que você tinha que fazer? Você tinha que [dica genérica sobre um assunto que ele não entende].

 

Irritante.

Mas se você parar para pensar, o raciocínio dessa pessoa é:

Tio Tiozão pensa…

Eu vejo este sobrinho poucas vezes por ano, logo não tenho assunto com ele. Por outro lado, não gosto deste silêncio constrangedor, então vou puxar papo falando sobre esta situação da vida dele (que alguém citou recentemente) e dizer o que eu acho mesmo que eu entenda pouco dela. Como vai ser uma opinião minha, e eu acho que tenho mais experiência de vida que este sobrinho, será a melhor dica da história, e ele será eternamente grato a mim. Eu até poderia tentar conhecer essa pessoa e sua situação melhor, mas… né? Quem tem tempo pra isso?

 

Assim, a pergunta/dica que deixou você irritado veio, ao mesmo tempo, de um lugar bom (se a pessoa não gostasse de você, ela não perderia o tempo dela) e de um lugar ruim (preguiça de mostrar interesse e entender as pessoas mais a fundo). Mas isso não importa.

Eu quero destacar algo que a gente geralmente nem percebe nessa hora: você também não está fazendo um trabalho muito bom quando se trata de investir tempo em conhecer melhor seus problemas e como solucioná-los. Seu tio está apenas analisando superficialmente sua vida, tentando encaixá-la em algum modelo que ele já tinha na cabeça dele para pessoas parecidas com você. Você também está analisando superficialmente sua vida, tentando encaixá-la em algum modelo que você já tinha em sua própria cabeça para pessoas parecidas com o que você quer ser. Você está brincando de casinha.

 

Brincando de casinha

Por brincar de casinha, eu quero dizer que você tá pensando por analogia. Você tá decidindo imitar o que outro já fez numa situação semelhante: “se funcionou para outros alcançarem o mesmo objetivo que eu quero alcançar, vai funcionar para mim”.

Exemplos desse jeito de pensar

“As pessoas que são escolhidas por tal empresa geralmente estudaram naquela faculdade.”
“Se eu quiser um papel com aquele diretor, eu tenho que fazer como aquele outro ator.”
“Para ficar com o corpo daquela pessoa, é só fazer aquela dieta.”

 

Há um problema: correlação não significa causa. Você acha que algo que você observou alguma pessoa fazer a fez alcançar seu objetivo, mas isso pode não ser verdade. Ela pode ter chegado lá fazendo algo que você não notou (ela está escondendo algo, ou você é um péssimo observador) ou por algum motivo que nem você nem mesmo essa pessoa notaram (a boa e velha sorte, que nunca pega bem na hora de explicar como você chegou aonde chegou).

Paul Graham foi quem disse que “empreendedores” que imitam outros empreendedores ao administrar suas startups (“go through the motions of running a startup“) estão brincando de casinha: em vez de pensar “como eu resolvo esse problema?” (pergunta que leva à solução do problema, o que leva ao sucesso da companhia), eles pensam “o que Mark Zuckerberg faria agora?” (pergunta que leva o “empreendedor” a imitar porcamente um empreendedor de verdade – ou até mesmo um de mentira -, o que leva ele a perder tempo em detalhes que não estão relacionados ao sucesso de seu projeto).

As pessoas brincam de casinha porque, na escola e na universidade, elas foram incentivadas (conscientemente ou não) a buscar atalhos e truques que permitissem alcançar objetivos mais rapidamente.

Hipster Estudante comum fala…

“Vai cair na prova?”
“Alguém tem provas antigas?”
“Este professor é mais fácil?”

 

E por que estudantes fazem isso?

1. Preguiça e impaciência: seria possível obter respostas refletindo sobre o assunto que se está analisando, aplicando engenharia reversa e, acima de tudo, trabalhando duro, dedicando as horas necessárias para solucionar um problema. Uma pessoa impaciente não gosta das palavras da frase anterior. Ela prefere entrar no Google e procurar uma solução que alguém já publicou na internet. Isso é aceitável se você procurar “como consertar meu chuveiro”. Imitar alguém consertando seu chuveiro é a mesma coisa que consertar seu chuveiro. Isso deixa de funcionar, entretanto, quando você entra em uma área competitiva. Se você tenta buscar, por exemplo, “como fazer meu negócio ter sucesso”, as respostas contidas nas páginas que você encontrar já terão sido absorvidas pelo mercado e não representarão mais um diferencial. Essas respostas não dão, assim, vantagem alguma a você nesse mercado competitivo. A solução, nesse caso, é abandonar o manual de instruções e tentar algo novo, diferente, o que nos leva a…

2. Pressão social e altas expectativas de outras pessoas: quando você tenta algo novo e entra numa arena com poucos concorrentes, as outras pessoas, que estarão assistindo da plateia, vão atirar várias críticas contra você por estar tentando sair da norma. Essa vulnerabilidade às opiniões alheias, entretanto, é necessária para você chegar a algum lugar, como diz Brené Brown. As críticas alheias podem servir até como um sinal de que você está fazendo a diferença. Mas nem todos tem a casca grossa o bastante para aguentar essa chuva de críticas.

 

Meu bisavô Nicolas Ghosn era um político astuto que conseguiu se manter permanentemente no poder e assumir cargos no governo, apesar de seus inúmeros inimigos (mais notavelmente seu arqui-inimigo, meu tataravô do lado da família Taleb). Quando meu avô, seu filho mais velho, estava começando a carreira administrativa e sua esperançosa carreira política, seu pai o chamou em seu leito de morte. “Meu filho, estou muito decepcionado com você”, disse ele. “Nunca ouvi nada de errado a seu respeito. Você se provou incapaz de causar inveja.”

taleb-head Nassim Taleb, Antifragile, cap. 2

 

Isso tudo não foi para dizer que não existem atalhos ou truques no mercado fora do mundo acadêmico. Mas, quanto mais na fronteira (região onde você pode fazer a diferença) você estiver, menos atalhos e truques vão existir/funcionar. O manual de instruções serve para se fazer algo de maneira segura, evitando erros, mas isso faz com que você também evite grandes acertos, e fique vivendo na média. Ninguém quer viver na média.

E, se serve de consolo, Paul Graham destacou que, se, por um lado, uma pessoa que conseguiu sucesso na academia sempre buscando minimizar seu esforço perde a arma mais forte dela quando truques e atalhos param de funcionar, por outro lado, isso indica que ainda há lugares em que se ganha ao buscar excelência.

 

Embora, por um lado, seja uma má notícia que você perdeu uma de suas mais poderosas armas, eu acho que excitante que tentar truques contra o sistema pare de funcionar quando você começa uma startup. É excitante que ainda existam partes do mundo onde você só vence fazendo um bom trabalho. Imagine o quão deprimente o mundo seria se ele fosse todo como escola ou grandes empresas, onde ou você tem que gastar um monte de tempo em coisas estúpidas, ou perder para pessoas que aceitam fazer isso. Eu ficaria encantado se tivesse percebido durante a faculdade que havia partes do mundo real onde truques importavam menos em que outras, e algumas partes onde truques importavam quase nada. Mas elas existem, e essa é uma das coisas mais importantes para se considerar quando você pensa sobre seu futuro. Como você vence em cada tipo de trabalho, e o que você gostaria de vencer fazendo?

paulg-head2 Paul Graham, Before the Startup